BHAGAVAD-GITA: CANTO VI EXERCÍCIO DE MEDITAÇÃO

EXERCÍCIO DE MEDITAÇÃO

Fala Krishna:


1. Aquele que executa um ato obrigatório sem esperar por seu fruto é o renunciador e ao mesmo tempo o yogue e não aquele que simplesmente descuida do fogo sagrado e deixa de praticar obras piedosas.


2. Sabe, filho de Pandu, que o que chamam de renúncia é Yoga, pois ninguém pode chegar a ser yogue sem antes ter renunciado a todas as intenções.


3. Para o asceta que deseja alcançar a Yoga, a ação é o meio, enquanto que para aquele que já a alcançou, o meio é o repouso.

Krishna e Arjuna no campo de batalha

4. Quando o homem renuncia a todas as intenções e não tem nenhum apego aos objetos sensíveis nem às suas obras, diz-se que atingiu a Yoga.


5. Procure o homem elevar o eu através do Eu, não permitindo que este afunde. Porque, na verdade, o Eu é amigo do eu, que mesmo assim é seu inimigo.


6. O eu é um amigo para o homem cujo eu foi conquistado pelo Eu; mas para aquele que não está de posse de seu Eu, o eu é como um inimigo...


7. O Eu supremo daquele que vive tranqüilo e submetido a seu Eu mantém-se inalterável em meio ao calor e ao frio, alegrias e pesares, honra e desonra.


8. O yogue satisfeito com o conhecimento de si, tranqüilo, que realizou seu próprio equilíbrio, senhor de seus sentidos, que vê da mesma forma o barro, a pedra e o ouro é considerado o verdadeiro místico.


9. Superior é aquele que mantém a igualdade de sua alma diante de amigos e inimigos, indiferentes e neutros, estranhos e parentes, homens bons e maus.


10. Trate o yogue de aplicar-se com afinco ao recolhimento espiritual, vivendo isolado em solitário retiro, com o pensamento e o corpo subjugados, livre de anseios, esperanças e possessividade.


11. Em um lugar puro prepare um assento para si, nem muito alto nem muito baixo, preparado com Kuza (uma planta indiana), uma pele e uma tela.


12. Então com a mente concentrada num único ponto, reprimindo a ação do pensamento e dos sentidos pratique a Yoga para purificar sua alma.


13. Mantendo-se firme, com o corpo, o pescoço e a cabeça eretos e imóveis, olhando fixamente para a ponta de seu nariz, sem desviar os olhos,


14. com ânimo sereno e livre de temor, a mente disciplinada, perseverando no voto de brahmachâri (celibato), permaneça recolhido e medite só em Mim, considerando-Me como o Supremo.


15. Vivendo assim continuamente concentrado em si mesmo, com o pensamento coibido, o yogue obtém a paz suprema do nirvana, que está em Mim.


16. A Yoga não é para quem come em excesso ou jejua com exagero, Arjuna; nem tampouco para quem dorme demais ou se entrega a prolongadas vigílias.


17. A Yoga, bálsamo de todo sofrimento e dor, só a atinge aquele que é sóbrio em alimentar-se e divertir-se, regrado em todos os seus atos e moderado no sono e na vigília.


18. Quando o homem mantém o pensamento disciplinado fixo no Eu e se mostra indiferente a tudo que é apetecível, diz-se que goza de união espiritual.


19. O yogue que tem a mente dominada e, recolhido em si mesmo pratica a yoga, é como uma chama luminosa que, ao abrigo do vento, não sofre nenhuma oscilação.


20. Quando sua mente, disciplinada pelo exercício da Yoga, está tranqüila; quando, percebendo o eu através do Eu, encontra satisfação em si mesmo;


21. quando saboreia o infinito deleite que está fora do alcance dos sentidos e só pode ser desfrutado pela inteligência e não se afasta nunca mais da realidade;


22. e quando, depois de ter alcançado esse estágio, julga que não há tesouro mais valioso e se firma nessa situação, nem mesmo a dor mais intensa pode abalá-lo.


23. Esta ruptura de toda relação com a dor é chamada Yoga. Esta Yoga deve ser praticada com ânimo constante e sem desalento.


24. Depois de abandonar sem exceção todos os anseios e desígnios engendrados pela fantasia e de reprimir com o poder da mente todos os sentidos e órgãos de ação, quaisquer que sejam os objetos a que se dirijam,


25. deve o yogue chegar ao repouso através de uma vontade tenaz; e uma vez concentrada a mente no Eu, não deve pensar em coisa alguma.


26. Sempre que a mente inquieta e volúvel se desvie, trate de refreá-la, subordinando-a logo ao domínio do Eu.


27. Porque a suprema beatitude está reservada ao yogue cuja mente está tranqüila, dominada a natureza passional, limpo de pecado, participando da essência de Brahma.


28. Assim, consagrando-se sem cessar à união mística e estando puro de pecado, o yogue obtém sem dificuldade o infinito deleite da comunhão com Brahma.


29. Quem se aplica de coração à Yoga, vê o espírito em todos os seres e todos os seres no espírito, pois por toda parte percebe a identidade.


30. Aquele que Me vê em todas as coisas, nunca será abandonado por Mim, nem Me abandonará jamais.


31. O yogue que, estabelecido na unidade, adora Meu ser que habita todas as criaturas, vive em Mim, qualquer que seja sua condição de vida.


32. Aquele que, através da identidade do Eu, vê o mesmo em toda parte, no prazer e na dor, Arjuna, é o yogue perfeito.




Fala Arjuna:


33. Sendo a mente inquieta e volúvel, ó Madhusudana, não compreendo a estabilidade dessa Yoga que, como me declarastes, baseia-se no equilíbrio mental.


34. Porque na verdade a mente é leviana, ó Krishna; é turbulenta, imperiosa e obstinada. A meu ver é tão difícil de dominar como o vento.




Fala Krishna:


35. Sem dúvida, ó tu de braço poderoso, a mente é movediça e difícil de subjugar. Contudo, filho de Kunti, pode ser dominada através de esforços contínuos e da indiferença.


36. Para aquele que não conseguiu vencer-se a si mesmo, é difícil de alcançar a Yoga, mas aquele que é dono de si mesmo e luta com afinco pode alcançá-la, valendo-se dos meios adequados.




Fala Arjuna:


37. Que destino aguarda, ó Krishna, aquele que está cheio de fé, mas demonstra fraqueza, cuja mente divaga e não consegue perfeição na Yoga?


38. Privado de um e de outro, vacilante e confuso no caminho de Brahma, não se perde como a nuvem desgarrada que desaparece no espaço?


39. Eu te peço Krishna, apague por completo essa dúvida em meu espírito, pois ninguém além de Ti pode dissipá-la.




Fala Krishna:


40. Nem neste mundo nem no outro, um homem como esse encontra a perdição, ó Pârtha, pois aquele que age com retidão, meu filho, jamais toma o caminho do mal.


41. Depois de atingir a região dos justos e ali permanecer anos sem conta, aquele que não progrediu na Yoga renasce num lugar puro e feliz;


42. ou nasce em uma família de sábios yogues. No entanto é difícil obter tal nascimento neste mundo.


43. Recobrando então a mesma disposição de ânimo, adquirida em seu corpo anterior, luta com maior empenho para obter a perfeição, filho de Kuru,


44. pois é irresistivelmente impelido a isso por sua prática anterior. Apenas pelo desejo de conhecer a Yoga, torna-se superior à palavra divina.


45. Mas o yogue que se esforça sem descanso e, purificado de toda a culpa, atingiu a perfeição através de vários nascimentos, alcança a meta suprema.


46. O yogue é superior aos ascetas, superior aos sábios e também superior aos homens de ação. Assim sendo, Arjuna, torna-te yogue.


47. Mas entre todos os yogues, aquele que, cheio de fé, abandonando a Mim todo o seu ser interior, Me rende adoração, é considerado por Mim como o maior dos místicos.

BHAGAVAD-GITA: CANTO V A SABEDORIA DO DESAPEGO

A SABEDORIA DO DESAPEGO

Arjuna disse:


1. Por um lado, Krishna, exaltas à renúncia à ação, por outro exaltas a Yoga (da ação). Diga-me claramente dos dois qual o melhor caminho.

Krishna e Arjuna no campo de
batalha

Krishna disse:


2. Tanto a renúncia como a yoga da ação conduzem à beatitude suprema, mas, dos dois, a Yoga da ação é sem dúvida superior.


3. Deve considerar-se como perseverante renunciante aquele que não sente nem aversão nem desejo; pois aquele a quem não afetam os "pares contrários" se livra com facilidade das cadeias da ação.


4. Ao contrário do sábio o ingênuo acredita que o método Sankhya e a Yoga são coisas distintas. Quem se aplica devidamente a um deles colhe o fruto de ambos.


5. A condição que alcançam os sankhyas é também alcançada pelos yogues; vê claramente aquele que considera Sankhya e Yoga como uma coisa só.


6. Mas sem Yoga é difícil chegar à renúncia, ó tu de braço possante. O sábio que se aplica à Yoga logo alcança Brahma.


7. Aquele que, vivendo entregue à Yoga é puro de coração, vence a si mesmo, refreia seus sentidos e identifica seu Eu com o de todas as criaturas, mesmo que execute uma ação, não se prende a ela.


8. "Eu nada faço" deve pensar o devoto instruído na verdade quando vê, ouve, toca, come, anda, dorme, respira.


9. fala, segura ou solta alguma coisa, abre ou fecha os olhos, considerando que "são os sentidos que se relacionam com os objetos sensíveis".


10. Quem age sem o menor apego depositando suas ações em Brahma não se macula com o pecado, da mesma forma que a água não adere à folha do lótus.


11. Os yogues executam seus atos exclusivamente com o corpo, pensamento, intelecto, e mesmo com os simples sentidos, sem abrigar qualquer desejo, a fim de purificar seu coração.


12. O devoto que renuncia ao fruto de suas ações consegue a paz eterna. Ao contrário, o homem sem devoção, que fustigado pelo desejo se apega ao fruto de suas obras, mantém-se prisioneiro (de seus próprios atos).


13. O Habitante do Corpo, renunciando a toda ação, através da mente, se mantém sereno, como feliz vencedor, na cidade de nove portas (o corpo), sem agir e sem ser causa de qualquer ação.


14. O Senhor não cria a atividade nem os atos do mundo, nem tampouco a conexão entre o ato e suas conseqüências. A natureza individual é que age.


15. O Senhor não assume nem as boas nem as más ações de alguém. O conhecimento está encoberto pela ignorância e por isto os mortais vivem em erro.


16. Aqueles, cuja ignorância se desvaneceu através do conhecimento espiritual, são iluminados pelo conhecimento que, resplandecente como o Sol, revela-lhes o supremo.


17. Pensando n'Ele, unidos de coração a Ele, e fazendo d'Ele sua meta suprema, permanecem limpos de pecado através do conhecimento e vão para o lugar de onde não se volta.


18. Os sábios vêm com igualdade o brâmane, dotado de saber e de modéstia, a vaca, o elefante, o cão e o pária.


19. Mesmo aqui na Terra, aqueles cuja mente está firme na igualdade triunfam deste mundo de matéria, pois o Brahma incorruptível é a própria igualdade e dessa forma descansam em Brahma.


20. Não se regozija com o que é agradável, nem se aflige com o desagradável o homem de entendimento firme e livre de confusão que conhece Brahma e em Brahma repousa.


21. Aquele cujo coração não se atém às impressões exteriores encontra em si mesmo a felicidade; em união mística com Brahma através da Yoga, desfruta perpétua bem-aventurança.


22. Porque os prazeres que emanam das impressões exteriores são verdadeiros mananciais de dor, porque tem princípio e fim. O sábio, ó filho de Kunti, não se deleita com semelhantes prazeres.


23. Aquele que, neste mundo, antes de livrar-se do corpo aprende a resistir aos impulsos do desejo e do ódio, goza de união espiritual e vive feliz.


24. O homem que encontra satisfação, deleite e luz em seu interior é um yogue que, unido a Brahma, alcança o nirvana em Brahma.


25. Os santos sábios, cujas culpas foram apagadas e cuja dualidade foi destruída, que conseguiram vencer-se a si mesmos e se dedicam ao bem-estar de todas as criaturas, alcançam o nirvana em Brahma.


26. Muito próximos do nirvana em Brahma estão aqueles que extirpam de seu coração os desejos e o ódio, aqueles que disciplinaram o corpo e a mente e conhecem o Eu.


27. Evitando que cheguem ao interior as impressões exteriores, concentrando a visão entre as sobrancelhas, deixando passar o alento de modo uniforme pelas narinas na inspiração e na expiração,


28. com os sentidos, o pensamento e o intelecto subjugados por completo, consagrado unicamente à liberação final, e isento de anseios, aversões e temores, o sábio é livre para sempre.


29. Sabendo que sou Eu que recebo os sacrifícios e que sou o senhor de todos os mundos e o amigo de todos os seres, encontra a paz.

BHAGAVAD-GITA: CANTO IV DA EXPERIÊNCIA ESPIRITUAL

DA EXPERIÊNCIA ESPIRITUAL

O Supremo Senhor fala:


1. Eu ensinei a Vivasvan esta ciência da Yoga eterna e trancendental, Vivasvan passou-a a Manu, o pai de todos os homens, e este então a transmitiu a Ikhsvaku, rei deste mundo.


2. Esta ciência suprema foi transmitida através da cadeia sucessória, e ela assim foi recebida também pelos reis devotos. Mas com o passar dos tempos, a cadeia se interrompeu, e a ciência como tal ficou como que perdida.


3. Hoje estou lhe revelando esta ciência antiquíssima da união com o Supremo, por você ser Meu devoto e ser também Meu amigo, podendo, pois, entender seu trancendental mistério.

Krishna e Arjuna no campo de batalha

Arjuna disse:


4. O deus do Sol Vivasvan é mais velho do que Tu; como posso compreender que num tempo tão remoto Tu tivesses lhe ensinado essa ciência suprema?




Krishna disse:


5. Tanto você como Eu já vivemos muitas vidas, posso lembrar-Me de todas; você, no entanto, não pode, ó vencedor de inimigos!


6. Mesmo sendo não nascido e Meu corpo imperecível não possa se corromper; embora Eu seja Senhor de todos os seres vivos; ainda assim Eu manifesto Minha forma original quando se faz necessário.


7. Em qualquer lugar e sempre que a verdade vacilar e a mentira dominar, Eu me manifestarei, ó descendente de Bharata.


8. Para restabelecer os princípios religiosos, para salvar os devotos e aniquilar os canalhas, Eu surjo em cada milênio.


9. Quem conhece realmente Meu nascimento divino e Minhas atividades, quando abandona este corpo não renasce neste mundo, mas passa a viver Comigo, ó ganhador de riquezas.


10. Estando livres do apego, sem sentir ódio nem medo, e pensando sempre em Mim, muitos se purificaram, por saber ou penitência, alcançando amor por Mim.


11. Cada um recompenso conforme se rende a Mim, ó descendente de Pritha. Mas, de todas as maneiras, todos seguem Meu caminho.


12. Desejando ter sucesso neste mundo material, os que trabalham por ganho fazem dádivas aos deuses, alcançando bem depressa tudo aquilo que desejam.


13. Eu instituí as quatro castas, segundo a divisão das qualidades e ações. Saiba que sou seu autor. Eu que sou, no entanto, inativo e imutável.


14. As obras não me contaminam, nem seu fruto é objeto do desejo para mim; aquele que Me conhece não se prende por suas ações.


15. Sabendo disso, os homens de outrora que buscavam a libertação executaram suas obras. Portanto, aplica-te também à ação, como fizeram teus antepassados.


16. "Que é a ação? Que é a inação"? Mesmo os sábios se confundem quanto a isso. Vou, portanto, explicar-te o que é a ação e graças a tal conhecimento estarás liberto do mal.


17. É preciso saber distinguir a ação da ação proibida e da inação. É muito intrincado o caminho da ação.


18. Sábio entre os homens, devoto e perfeito realizador de toda a obra é aquele que pode ver a inação na ação e a ação na inação.


19. Aquele que age sem ser impelido pelo desejo e cujas obras são consumidas pelo fogo do conhecimento, é considerado sábio pelos inteligentes.


20. O homem que não tem apego ao fruto da ação e vive sempre satisfeito e independente não age em absoluto, apesar de se engajar na ação.


21. Livre de anseios e esperanças, mantendo disciplinados o corpo e a mente, renunciando a todo tipo de possessividade e executando apenas os atos corporais o homem se liberta do mal.


22. Aquele que está sempre satisfeito com tudo que recebe, que superou os "pares contrários", liberto da má vontade, inalterável no sucesso e na adversidade, mesmo que execute alguma obra não fica preso a ela.


23. A ação executada pelo homem, cujos desejos estão extintos, se desvanece por completo. Livre e com a mente fixa no conhecimento executa suas obras só por sacrifício.


24. Brahma é o sacrifício; Brahma é a oblação oferecida por Brahma no fogo, que é Brahma; e a Brahma se encaminha aquele que em sua obra medita em Brahma.


25. Alguns devotos oferecem sacrifícios apenas aos deuses, outros oferecem até o sacrifício por sacrifício, no fogo de Brahma.


26. Existem os que sacrificam o ouvido e os demais sentidos no fogo da continência, outros sacrificam o som e os demais objetos dos sentidos no fogo dos sentidos.


27. Há também os que sacrificam todas as funções dos sentidos e da vida no fogo místico do domínio de si mesmo, avivado pelo conhecimento espiritual.


28. Outros praticam sacrifícios oferecendo suas riquezas, submetendo-se a privações numa vida austera, ou executando práticas piedosas. Existem ascetas que, ligados por votos rígidos, fazem sacrifício de leitura silenciosa e de conhecimento.


29. Há quem sacrifique a expiração na inspiração e a inspiração na expiração, ou reprime ambos movimentos respiratórios, fazendo do exercício do prânayâma sua tarefa principal.


30. Existem ainda os que, sujeitando-se a uma alimentação regrada sacrificam seus alentos vitais nos alentos vitais. Todos estes devotos sabem o que é o sacrifício e através dele se purificam do pecado.


31. Sustentados com os resíduos dos sacrifícios, alimento da imortalidade, vão unir-se ao eterno Brahma. Aqueles que não praticam nenhum sacrifício não podem gozar este mundo; como poderão pois, gozar o outro, ó melhor dos kurus?


32. Assim, pois, muitos sacrifícios são oferecidos à boca de Brahma. Saiba que todos eles emanam da ação, compreendendo bem isto, serás livre.


33. Superior a todo sacrifício material é o sacrifício da sabedoria, ó perseguidor de teus inimigos. Toda ação em sua integridade, filho de Pritha, está consumada no conhecimento.


34. Aprende a buscar esse conhecimento prostrando-se aos pés dos sábios, interrogando-os e servindo-os; e os sábios, os que vêem a verdade, irão iniciar-te na sabedoria.


35. Desde que alcances tal conhecimento, não cairás novamente em confusão, filho de Pandu; pois graças a ele verás todos os seres em ti mesmo, e conseqüentemente em mim.


36. Ainda que fosses o maior dos pecadores, cruzarias a salvo o oceano dos pecados na barca do conhecimento espiritual.


37. Assim como o fogo flamejante reduz a lenha a cinzas, Arjuna, o fogo do conhecimento reduz a cinzas todas as ações.


38. Na verdade, não há neste mundo purificador comparável ao conhecimento. Aquele que atingiu a perfeição pela Yoga, irá encontrá-lo dentro de si mesmo no decorrer do tempo.


39. O homem cheio de fé obtém o conhecimento aplicando-se a ele e subjugando os sentidos. Atingindo o conhecimento, logo alcançará a paz suprema.


40. Pelo contrário o homem ignorante, sem fé, em cuja alma fermenta a dúvida, caminha para a perdição; pois aquele que está dominado pela dúvida não goza deste mundo nem do outro, nem da bem-aventurança.


41. As ações, Dhananjaya, não aprisionam aquele que, submetido ao Eu, renunciou à ação pela Yoga e destruiu a dúvida através do conhecimento.


42. Assim, depois de matar com a espada do conhecimento essa dúvida nascida da ignorância e arraigada em tua alma, aplica-te à Yoga. Levanta-te, pois, filho de Bharata.

BHAGAVAD-GITA: CANTO III

YOGA DA AÇÃO

Arjuna disse:


1. Por que queres me engajar nesta terrível batalha, se achas que a compreensão é superior ao trabalho, ó Keshava, ó Jnardana?


2. Minha mente está confusa com Tuas palavras dúbias; dize-me, pois, com clareza o que é melhor para mim.

Krishna e Arjuna no campo de batalha

O Supremo Senhor disse:


3. Eu acabei de explicar que há dois tipos de pessoas tentando entender o Eu. Umas através da mente, outras por servir à Deus.


4. Não se é livre do dever porque se deixa de agir nem se atinge a perfeição somente pela renúncia.


5. Todo mundo tem que agir de acordo com o seu carma. Nem mesmo por um momento pode alguém deixar de agir.


6. Quem reprime os seus sentidos mas não livra sua mente dos objetos do desejo está enganando a si mesmo e não passa de um farsante.


7. Mas aquele que usa a mente no controle dos sentidos praticando a devoção e agindo com desapego, é digno de ser louvado.


8. Execute o seu trabalho pois esse procedimento é melhor que a inação. Sem trabalhar não se pode sequer manter-se o corpo.


9. Deve ser feito o trabalho como um sacrifício a Deus. Pois se é feito de outro modo, ele leva ao cativeiro do mundo material. Por isso ó filho de Kunti, execute o seu trabalho para a satisfação d'Ele, e assim você será livre.


10. No início da criação o Pai de todos os seres enviou muitas gerações de homens e semideuses com o fim de executar sacrifícios para Vishnu e abençoou-os dizendo: "Que vós sejais bem felizes; através dos sacrifícios tereis o que desejardes.


11. Agradando aos semideuses eles vos serão propícios. E assim - os deuses e os homens cooperando mutuamente - haverá muita fartura".


12. Os semideuses contentes com os vossos sacrifícios saciarão vossos desejos. Mas quem desfruta das dádivas sem ofertá-las aos deuses é certamente um ladrão.


13. Os devotos do Senhor estão livres do pecado porque comem alimento ofertado em sacrifício. Os que preparam a comida para o gozo dos sentidos apenas comem pecado.


14. Nossos corpos materiais são nutridos pelos grãos produzidos pelas chuvas. As chuvas são produzidas por força dos sacrifícios, os quais são provenientes das obrigações prescritas.


15. Todas as obrigações estão prescritas nos Vedas, e os Vedas se manifestam diretamente de Deus. Por isso o Brahman Supremo é presente eternamente no rito de sacrifício.


16. Quem não adota a seqüência de sacrifícios prescritos pelas escrituras védicas decerto vive em pecado. Vive em vão quem vive apenas como um servo dos sentidos, ó descendente de Pritha.


17. Mas para aquele que encontra contentamento no Eu, e se ilumina no Eu, já não há obrigação.


18. Ele já não tem razão para cumprir dever algum. Nem tampouco tem razão para não fazer o que deve. Ele também não precisa depender mais de ninguém.


19. Por isso deve-se agir sem apego a resultados, mas apenas por dever, pois agindo sem apego, o homem atinge o Supremo.


20. Mesmo os reis como Janaka chegaram à perfeição por cumprirem seus deveres. Do mesmo modo você deve fazer seu trabalho para ensinar pelo exemplo.


21. Qualquer ação praticada por um homem superior é tomada como exemplo por toda a comunidade como se fosse um padrão que todos querem seguir.


22. Ó descendente de Pritha, não há dever que me obrigue em qualquer um dos três mundos. Não sinto falta de nada nem necessito de nada, mas mesmo assim Eu Me ocupo em cumprir o que é prescrito.


23. Se alguma vez Eu deixasse de ocupar-Me com cuidado da execução dos deveres decerto todos os homens seguiriam o Meu exemplo.


24. Se Eu deixasse de cumprir os Meus deveres prescritos arruinaria os três mundos criando prole indesejada, destruindo assim a paz de todos os seres vivos.


25. Assim como os ignorantes executam seus deveres com apego aos resultados, igualmente os que são sábios também cumprem seu dever, sem desejar nada em troca, apenas com o propósito de conduzir as pessoas para o caminho correto.


26. Que o sábio não confunda a mente dos ignorantes que trabalham pelo ganho, procurando encorajá-los a abster-se de trabalhar. Ele só deve ensiná-los a servir com devoção.


27. A alma estando confundida pelo mundo material coloca-se como autora do que na verdade é feito pela ação da natureza.


28. Quem possui conhecimento da Realidade Absoluta, Arjuna de braços fortes, não se ocupa na procura dos prazeres dos sentidos, pois bem sabe a diferença entre agir por devoção ou apegado aos resultados.


29. Por estarem confundidos pelas três qualidades da matéria, os ignorantes se ocupam com os assuntos mundanos, ficando muito apegados. Não deve, no entanto, o sábio por causa disso agitá-los. Eles agem desse modo por falta de entendimento.


30. Por esse motivo, Arjuna, com a mente fixa em Mim, sem desejar nada em troca, e ofertando-Me os teus atos, lute sem desanimar!


31. Quem executa os deveres conforme os Meus preceitos, quem segue Minhas lições com muita fé e devoção, sem se levar pela inveja, fica livre da prisão do trabalho interesseiro.


32. Mas os que, devido à inveja, não praticam Meus preceitos, privam-se completamente de todo o conhecimento, malogrando seus esforços de atingir a perfeição.


33. Até mesmo os eruditos não podem deixar de agir de acordo com os ditames de sua própria natureza. Que adianta se reprimir?


34. Todo mundo experimenta atração ou repugnância pelos objetos sensíveis; mas ninguém deve servir ao império dos sentidos que são pedras no caminho que leva à libertação.


35. É muito melhor cumprir, embora imperfeitamente, as próprias obrigações do que cumprir as dos outros da maneira mais perfeita. Morrer cumprindo o dever é correr menos perigo do que perder seu caminho.




Arjuna disse:


36. Ó descendente de Vrishni, o que faz o homem pecar, embora contra a vontade, como se fosse forçado?




O Supremo Senhor fala:


37. É tão-somente a luxúria gerada pela paixão que mais tarde se transforma em ira, a grande inimiga pecaminosa e voraz devoradora de tudo.


38. Como o fumo cobre o fogo, a poeira cobre o espelho e o útero cobre o feto, de maneira similar o ser vivo está coberto por camadas de luxúria.


39. Desse modo a consciência é coberta de luxúria, que é sua eterna inimiga, pois nunca se satisfaz e arde tanto como o fogo.


40. A mente e os cinco sentidos, assim como a inteligência, são moradas da luxúria, que cobrindo a consciência do ser vivo, o desnorteia.


41. Sendo assim, filho de Bhárata, subjugue desde o princípio o causador do pecado controlando os seus sentidos, e aniquile o matador da alma e do conhecimento.


42. Os sentidos se situam acima dos seus objetos. Mais acima dos sentidos está situada a mente. Em posição superior se situa a inteligência e, acima desta, está a alma.


43. Sabendo então que transcende, tanto aos sentidos e à mente, assim como à inteligência, deve por isso a Pessoa, Arjuna de braços fortes, domar o eu inferior e, com a força do espírito, vencer de vez a luxúria, esse inimigo terrível.

BHAGAVAD-GITA: CANTO II

REVELAÇÃO DA VERDADE

Fala Sanjaya:


1. A ele, que estava repleto de amargura e com os olhos cheios de lágrimas, dirigiu-se Madhusudana e o consolou com as seguintes palavras:

Krishna e Arjuna no campo de batalha

Fala Krishna:


2. Neste momento decisivo, ó Arjuna, por que te entregas a semelhante desânimo, indigno de um Ariano e que te fecha os céus?


3. Não cedas à fraqueza, que de nada serve. Enche-te de coragem contra teus inimigos e sê o que realmente és!




Fala Arjuna:


4. Mas, como posso lutar, ó Madhusudana, e lançar flechas contra Bhisma e Drohna, que ambos merecem reverência e simpatia?


5. Bem melhor seria comer pão mendigado neste mundo do que trucidar esses grandes chefes. E, se os matasse, manchado de sangue, que seriam toda minha riqueza e os prazeres da Terra?


6. Melhor seria sucumbir às mãos deles, donde deriva gozo e felicidade, do que matá-los, a esses, sem os quais não teria fim o vácuo da minha vida.


7. Com a alma repleta de temor e compaixão, eu te suplico, Senhor, faze-me saber qual o caminho certo. Eu, teu discípulo, me refugio a Ti para saber o que devo fazer e deixar de fazer.


8. De que me serviria um reino próspero, se não me libertar da culpa? De que me serve possuir o mundo, se os que amo não mais existem?




Fala Sanjaya:


9. Assim falava Arjuna ao Senhor dos corações. "Não, não quero lutar!", suspirou - e calou-se.


10. Krishna, porém, sorrindo benevolamente, ali mesmo, em face dos dois exércitos, assim falou ao desanimado:




Fala Krishna:


11. Andas triste por algo que tristeza não merece - e tuas palavras carecem de sabedoria. O sábio, porém, não se entristece com nada, nem por causa dos mortos nem por causa dos vivos.


12. Nunca houve tempo em que eu não existisse, nem tu, nem algum desses príncipes - nem jamais haverá tempo em que algum de nós deixe de existir em seu Ser real.


13. O verdadeiro Ser vive sempre. Assim como a alma incorporada experimenta infância, maturidade e velhice dentro do mesmo corpo, assim passa também de corpo a corpo - sabem os iluminados e não se entristecem.


14. Quando os sentidos estão identificados com objetos sensórios, experimentam sensações de calor e de frio, de prazer e de sofrimento - estas coisas vêm e vão; são temporárias por sua própria natureza. Suporta-as com paciência!


15. Mas quem permanece sereno e imperturbável no meio do prazer e do sofrimento, somente esse é que atinge a imortalidade.


16. O que é irreal não existe, e o que é real nunca deixa de existir. Os videntes da Verdade compreendem a íntima natureza tanto disto como daquilo, a diferença entre o ser e o parecer.


17. Compreende como certo, ó Arjuna, que indestrutível é aquilo que permeia o Universo todo; ninguém pode destruir o que é imperecível, a Realidade.


18. Perecíveis são os corpos, esses templos do espírito - eterna, indestrutível, infinita é a alma que neles habita. Por isto, ó Arjuna, luta!


19. Quem pensa que a Alma, o Eu, que mata, ou o Eu que morre, não conhece a Verdade. O Eu não pode matar nem morrer.


20. O Eu nunca nasceu nem jamais morrerá. E uma vez que existe, nunca deixará de existir. Sem nascimento, sem morte, imutável, eterno - sempre ele mesmo é o Eu, a alma. Não é destruído com a destruição do corpo (material).


21. Quem sabe que a alma de tudo é indestrutível e eterna, sem nascimento nem morte, sabe que a essência não pode morrer, ainda que as formas pereçam.


22. Assim como o homem se despoja de uma roupa gasta e veste roupa nova, assim também a alma incorporada se despoja de corpos gastos e veste corpos novos.


23. Armas não ferem o Eu, fogo não o queima, águas não o molham, ventos não o ressecam.


24. O Eu não pode ser ferido nem queimado; não pode ser molhado nem ressecado - ele é imortal; não se move nem é movido, e permeia todas as coisas - o Eu é eterno.


25. Para além dos sentidos, para além da mente, para além dos efeitos da dualidade habita o Eu. Pelo que, sabendo que tal é o Eu, por que te entregas à tristeza ó Arjuna?


26. Se o ego está sujeito às vicissitudes de nascer e morrer, nem por isto deves entristecer-te, ó Arjuna.


27. Inevitável é a morte para os que nascem; todo morrer é um nascer - pelo que, não deves entristecer-te por causa do inevitável.


28. Imanifesto é o princípio dos seres; manifesto o seu estado intermediário; e imanifesto é também o seu estado final. Por isto, ó Arjuna, que motivo há para a tristeza?


29. Alguns conhecem o Eu como glorioso; alguns falam dele como glorioso; outros ouvem falar dele como glorioso; e outros, embora ouçam, nada compreendem.


30. Eterno e indestrutível é o Eu, que está sempre presente em cada ser. Por isto, ó Arjuna, não te entristeças com coisa alguma.


31. De mais a mais, visando o teu próprio dever, não vaciles, porquanto, para um príncipe da classe dos guerreiros, nada é superior à uma guerra justa.


32. Felizes deveras são os guerreiros chamados a lutar numa batalha dessa natureza, que lhes vem espontaneamente como uma porta aberta para os céus.


33. Mas, se você se negar a cumprir o seu dever de combater nesta luta, incorrerá em pecado e perderá para sempre sua fama de guerreiro.


34. Todos irão comentar sua infame conduta e para quem se respeita, desonra é pior que a morte.


35. Todos estes generais que lhe têm em alta conta, por seu nome e sua fama, certamente irão pensar que foi somente por medo que você não quis lutar.


36. Todos seus inimigos falarão mal de você, demonstrando menosprezo pelas suas qualidades. O que poderia ser mais doloroso que isso?


37. Ó bravo filho de Kunti, ou você morre na luta e vai viver outra vida nos mundos celestiais ou, se vencer, você vive para gozar nesta Terra. Por isso, lute com fé.


38. Lute apenas por lutar sem pensar em perda ou ganho, em alegria ou tristeza, em vitória ou em derrota, pois, agindo desse modo, você nunca pecará.


39. Até aqui Eu lhe falei do conhecimento obtido pelo estudo analítico da filosofia Sankhya. Ouça agora o que direi ó descendente de Bhárata, sobre o trabalho que é feito sem apego a resultados, que livra do cativeiro do trabalho mercenário.


40. Nesta via não há perda e nenhum esforço é em vão, e um pequeno avanço nela liberta do grande medo.


41. Amado filho dos kurus, quem segue por esta via de maneira resoluta possui a mente indivisa. Mas a mente do indeciso segue muitas direções.


42-43. Falsos adeptos dos Vedas desejosos de prazeres, de riqueza e de poder, fazem ritos para entrar nos mundos celestiais. Eles ficam fascinados pelo linguajar florido dos antigos textos védicos, e só crêem no que existe para o gozo dos sentidos.


44. Na mente dos apegados aos prazeres dos sentidos e à riqueza material e que por isso se iludem, não ocorre a decisão de prestar serviço a Deus.


45. Os Vedas tratam das três qualidades da matéria. Eleve-se acima delas, livre-se das dualidades e do desejo de posse, Arjuna, e fixe-se no Eu.


46. O propósito cumprido pela pequena cisterna cumpre-se melhor ainda pela fonte abundante. Igualmente as intenções expressas nas escrituras cumprem-se completamente por quem conhece os propósitos que se ocultam por trás delas.


47. O direito que é devido é o de cumprir a missão e não o de reclamar o resultado da ação. Não considere a si mesmo o objetivo dos seus atos nem se prenda à inação.


48. Fixando a mente na yoga, abandonando o desejo de vitória ou de derrota, execute o seu trabalho sem apego ao resultado.


49. Ó ganhador de riquezas, liberte-se do trabalho motivado pelo lucro mantendo-se bem distante das ações abomináveis. Os míseros avarentos é que querem desfrutar dos resultados da ação. Quem é consciente de Mim serve-Me com devoção.


50. A pessoa que se ocupa em servir com devoção encontra-se liberada de todas as reações. Por isso pratique yoga que é fazer tudo com arte.


51. Os que fazem seu trabalho com inteira devoção, sem apego a resultados, conseguem se libertar do nascimento e da morte atingindo a perfeição.


52. Quando sua inteligência conseguir ultrapassar a floresta da ilusão, você então se tornará totalmente indiferente ao que se disse ou dirá.


53. Se sua mente resiste ao florido linguajar dos antigos textos védicos e permanece fixada em transe transcendental, então você realiza a consciência divina.




Arjuna fala:


54. Como se mostra a pessoa que atingiu a transcendência, em que língua ela se expressa, como se senta e caminha?




O Supremo Senhor fala:


55. Quando um homem renuncia aos desejos dos sentidos engendrados pela mente, obtendo contentamento unicamente no Eu, diz-se então que alcançou a consciência divina.


56. Quem está sempre tranqüilo apesar das três misérias; quem não se deixa exaltar quando há felicidade; quem está livre do apego; quem não tem ódio nem medo; merece o nome de Sábio.


57. Neste mundo transitório quem não se deixa afetar pelo bem ou pelo mal que poderão sobrevir, sem louvá-lo ou maldizê-lo, já se encontra situado na consciência divina.


58. Aquele que for capaz de retirar os sentidos de todos os seus objetos assim como a tartaruga recolhe os membros no casco, deve ser considerado um ser auto-realizado.


59. A alma corporificada consegue renunciar aos prazeres dos sentidos muito embora ela não perca o sentido do prazer. Porque, depois de provar o gozo transcendental, ela fixa a consciência.


60. Os sentidos são tão fortes que conseguem arrastar mesmo a mente do homem sóbrio que se esforça por domá-los.


61. Quem controla os seus sentidos concentrando-se em Mim pode ser considerado um homem de mente estável.


62. Ao contemplar os objetos a eles nos apegamos, do apego vem a luxúria, e da luxúria a ira.


63. Da ira vem a ilusão, a ilusão turba a memória. A memória confundida desbarata a inteligência, e quando esta se destrói cai-se de novo no poço.


64. Quem controla os seus sentidos por praticar os princípios da liberdade regrada recebe misericórdia e então fica liberado da aversão e do desejo.


65. E para quem recebeu misericórdia divina já não existem misérias, e a inteligência fixa-se nessa condição feliz.


66. Sem consciência divina a mente não se controla nem se fixa a inteligência, sem o quê, não existe a paz. E onde não existe paz, pode haver felicidade?


67. Assim como um vento forte leva um barco mar afora, apenas um dos sentidos em que a mente se detenha pode levar para longe a inteligência do homem.


68. Arjuna de braços fortes, aquele cujos sentidos estão livres dos objetos, tem a inteligência firme.


69. O que é noite para todos é tempo de despertar para os autocontrolados. E o que é manhã para todos, para o pensativo é noite.


70. Quem não se deixa agitar pelo fluir dos desejos que entram qual rios no mar, que no entanto fica estável, é o único que tem paz; não aceite aquele que se esforça por saciar seus desejos.


71. A pessoa que abandona o sentimento de posse e os desejos dos sentidos, desprovida de egoísmo, alcança a paz verdadeira.


72. Eis o caminho da vida, divina e espiritual, onde não existe engano. Indo por este caminho, mesmo na hora da morte, chega-se ao Reino de Deus.

BHAGAVAD-GITA: CANTO I

IGNORÂNCIA E SOFRIMENTO DE ARJUNA

Fala Krishna:


25. Eis aí reunidos os parentes dos Kurus!




Fala Sanjaya (o narrador):


26. Então viu Arjuna, nos dois exércitos, homens ligados a ele pelos vínculos do sangue: pais, avós, mestres, primos, filhos, netos, sogros, colegas e outros amigos - todos armados em guerra contra ele:


27. Com o coração dilacerado de dor e profundamente condoído, assim falou ele:

Krishna e Arjuna no campo de batalha

Fala Arjuna:


28. Ó Krishna! Ao reconhecer como meus parentes todos esses homens, que devo matar, sinto os meus membros paralisados, a língua ressequida no paladar, o coração a tremer e os cabelos eriçados na cabeça... Falha a força do meu braço... Cai-me por terra o arco que tendera...


29. Mal me tenho em pé... Ardem-me em febre os membros... Confusos estão os meus pensamentos... A própria vida parece fugir de mim...


30. Nada enxergo diante de mim senão dores e ais... Que bem resultaria daí, ó Keshava (um dos muitos apelidos de Krishna), se eu trucidasse os meus parentes?


31. Não, Krishna, não quero vencer. Não quero, deste modo, conquistar soberania e glória, riqueza e prazer.


32. Ó Govinda, como poderia semelhante vitória dar-me satisfação? Como me compensariam esses espólios da perda que sofreria? E que gozo teria ainda a minha vida, se a possuísse pelo preço do sangue dos únicos que me são caros, e sem os quais a vida me seria sem valor?


33. Avós, pais e filhos, aqui os vejo. Mestres, amigos, cunhados, parentes - não, não os quero matar, ó Senhor dos mundos! Nem que eles anseiem por derramar o meu sangue.


34. Não os matarei, Madhusudana, ainda que com isto lograsse domínios sobre os três mundos - menos ainda me seduz a posse da terra.


35. Dores somente me caberiam por semelhante mortandade.


36. Mesmo que os filhos dos Dhritarashtras sejam pecadores, sobre nossa cabeça recairia a culpa, se os matássemos. Não, não é lícito matá-los. E como poderíamos ser felizes, sem os nossos parentes, ó Madhava?


37. E se eles, obsedados de cobiça e cólera, não vêem pecado na rebeldia e no sangue derramado,


38. Como poderíamos nós fazer o mesmo, ó Santo? Nós que vemos pecado em matarmos nossos parentes?


39. Quando uma tribo se corrompe, perece a piedade, e com ela perece o povo - a impiedade é contagiosa!


40. Corrompe a mulher, mesclando o puro com o impuro, e abre-se o inferno ao destruído e ao destruidor.


41. Até as divindades, destituídas dos sacrifícios, tombam dos céus.


42. E essa mescla de puros com impuros produz a ruína das famílias.


43. E o destino do destruidor é o inferno, consoante as escrituras.


44. Ai, que desgraça seria se trucidássemos nossos parentes, levados pela ambição do poder!


45. Bem melhor seria se nos rendêssemos aos inimigos armados e nos deixássemos matar na luta, sem armas nem defesa.


Assim dizendo, em pleno campo de batalha, deixou-se Arjuna tombar no assento da carruagem, e das mãos lhe caíram arco e flechas, porque trazia o coração repleto de amargura.

BHAGAVAD-GITA- INTRODUÇÃO

A epopéia Mahâbhârata, de que faz parte o Bhagavad-Gîtâ, foi compilada na forma atual entre os séculos 5 e 1 a.C. A epopéia se reporta à grande Índia de outrora, unificada política e culturalmente, estendendo-se do Himalaia ao cabo Camorim. Os kurus formavam um importante kula (clã) dessa época. Quando seu rei Dhritarâshtra, o rei cego, envelheceu, decidiu ceder o trono, não a seu filho Duryôdhana, mas ao primogênito de seu irmão Pându, Yudishtira; pois Duryôdhana, dado ao mal, não era digno de governar. Krishna e Arjuna. http://www.bhagavad-gita.org Mas Duryôdhana apoderou-se do trono através de intrigas e traições e tratou de tentar liquidar Yudishtira e seus quatro irmãos. Krishna, o Deus encarnado, chefe do clã Yâdava, amigo e parente dos kurus, tentou reconciliar os dois partidos, reclamando para os príncipes pândavas apenas cinco cidades. Duryôdhana recusou-se a entregar sem luta a menor parcela de terra. Tornou-se então necessário combater pela justiça e pelo direito. Todos os príncipes da Índia tomaram um ou outro partido. Krishna, imparcial, ofereceu uma escolha aos dois partidos: Duryôdhana escolheu ter aos seu lado todo o exército de Krishna, enquanto que o próprio Krishna, sozinho, passou para o outro campo, não como guerreiro, mas como simples condutor do carro de Arjuna. Drôna, que instruíra os kurus e os pândavas na arte militar, tomou o partido de Duryôdhana, porque seu velho inimigo Drupada escolhera o outro campo. Bhîshma, tio-avô dos príncipes kuravas e pândavas, o homem que sempre vivera em castidade e era o homem mais forte de seu tempo, era o chefe do partido que tentara reconciliar kurus e pândavas. Quando fracassaram as tentativas pacíficas e a guerra tornou-se inevitável, ele decidiu, depois de examinar escrupulosamente seus deveres e sua obrigação, tomar o partido de Duryôdhana. Sabia que este estava errado e se a batalha envolvesse apenas os dois ramos da mesma família, teria permanecido neutro; mas quando viu que todos os antigos inimigos dos kurus estavam se aliando aos pândavas, decidiu lutar apenas dez dias ao lado de Duryôdhana e depois se retirar para uma morte voluntária (obtida por meios não violentos). Do ponto de vista estritamente militar, o exército de Duryôdhana era claramente superior ao de seu adversário. Mas esta superioridade era compensada pela presença de Krishna no campo oposto. Sanjaya, o condutor do carro do velho rei Dhritarâshtra, relata-lhe o que aconteceu no campo de Kurukshetra, onde os dois exércitos se reuniram para uma luta sem precedentes na história da antiga Índia. É então que começa o Bhagavad-Gîtâ, o Canto Divino, assim chamado por conter as palavras de Krishna, a divindade encarnada, e por ensinar o homem a elevar-se acima da consciência humana, até uma consciência divina superior, realizando desta forma na Terra o reinado dos céus. FONTE DO TEXTO ACIMA O Bhagavad-Gita faz parte da antiqüíssima epopéia Mahâbhârata, que compõe as Escrituras Sagradas da milenar cultura indiana.